Endometriose é definida como presença de tecido endometrial fora da cavidade uterina. É uma doença crônica relacionada à dor pélvica e infertilidade¹.

O endométrio é a camada que recobre a parede interna do útero, tornando-se mais espesso para que o óvulo, depois de fertilizado, consiga implantar nele¹. Cada vez que não acontece fecundação, boa parte desse endométrio que aumentou é eliminado durante a menstruação¹. Neste período, parte do fluxo tem uma direção retrógrada, em direção a cavidade pélvica. As células do endométrio que lá se instalam podem se desenvolver e lá permanecer, respondendo, ou não, ciclicamente aos estímulos hormonais mensais.

A menstruação retrógrada acontece na maior parte das mulheres, porém 90% delas não têm endometriose. Assim, as teorias genéticas, que dizem haver predisposição genética para a formação de células endometriais fora do útero; imunológica, que diz haver uma reação inflamatória muito maior em determinado grupo de mulheres; e celêumicas, que dizem que desde a época fetal há permanência de células que se transformarão em endométrio fora do útero, são as mais aceitas. O tecido endometriótico fora da cavidade uterina, presente na cavidade pélvica ou sobre órgãos como ovários ou intestino, sofre a açaís cíclica hormonal, que faz desenvolver a lesão endometriótica1,2.

Sua ocorrência exata é desconhecida, mas as estimativas variam de 2% a 10% das mulheres em idade reprodutiva, e 50% nas mulheres inférteis². No Brasil, esses dados são incertos². Há um atraso do diagnóstico em torno de 7 a 10 anos, e alguns estudos mostram que a endometriose, principalmente a profunda, inicia-se na adolescência².

A endometriose é considerada uma doença enigmática, que merece atenção dos profissionais de saúde, assim como o conhecimento da população¹. Trata-se de uma doença de diagnóstico difícil, sem cura e mesmo não sendo considerada maligna, gera graves danos à vida da mulher¹.

 

Sintomas2

A endometriose é caracterizada geralmente por grupos de sintomas a serem investigados:

  • Dismenorreia (cólica antes ou depois da menstruação), que pode ser primária ou secundária, progressiva ou não, mas forte o suficiente para a limitação da qualidade de vida, isolamento social e absenteísmo;
  • Dor pélvica crônica não cíclica, importante correlacionar com causas multifatoriais da dor pélvica crônica, como a síndrome da bexiga dolorosa e síndrome miofascial;
  • Dor durante o ato sexual, principalmente relacionada à profundidade e determinadas posições, quando superficial pensar em outras causas associadas como contratura do assoalho pélvico e vulvodínea;
  • Sintomas urinários no período menstrual, como urgência, aumento da frequência urinária, disúria e, raramente, hematúria, simulando infecções do trato urinário baixo;
  • Sintomas intestinais durante o período menstrual, como constipação e diarreia;
  • Infertilidade, em sua maioria primária.

 

Diagnóstico3

A anamnese e o exame clínico são fundamentais que a endometriose seja aventada como uma hipótese diagnóstica4. A partir daí, exames como ultrassom transvaginal com preparo intestinal e/ou ressonância magnética da pelve são as ferramentas que auxiliam o médico a diagnosticar a doença4. Caso os exames sejam inconclusivos, mas a clínica (a dor ou a infertilidade) seja compatível, faz-se necessária uma laparoscopia em vídeo com biópsia de lesões (caso sejam encontradas) 4.

É importante frizar que nem sempre a intensidade dos sintomas infere a gravidade ou quantidade da lesão. Sendo assim, os métodos diagnósticos são de extrema importância 5.

 

Tratamento e Prevenção2

O tratamento pode ser clínico ou cirúrgico. A videolaparoscopia pode ser diagnóstica, terapêutica ou ambas. Porém, pode não reduzir os sintomas de dor em até 1/3 das pacientes5.

O tratamento clínico da paciente sintomática não é curativo, e a dor recorre após o término do tratamento, sendo utilizado para remissão e controle de sintomas, assim como prevenção do aumento da doença2. Pode ser feito com medicamentos hormonais, como contraceptivos, progestágenos ou agonistas do GnRH, levando em conta as preferências da paciente, efeitos colaterais, eficácia, custo e disponibilidade2.

É importante avaliar a paciente após os primeiros seis meses do início do tratamento clínico para observar se houve resposta com diminuição dos sintomas2. Após isso, acompanhar anualmente com exames de imagem para avaliar se existe progressão da doença2.

Quando a paciente tiver desejo de gestar, deve-se interromper a medicamento e dar um prazo de seis meses para a gravidez espontânea2. Se não houver, deve-se investigar o casal e proceder possivelmente para o procedimento cirúrgico se a causa for endometriose, avaliando qual a melhor estratégia no momento, inclusive a técnica de reprodução assistida2.

Por fim, é importante salientar que a endometriose deve ser abordada de maneira multiprofissional. Não somente o ginecologista, mas dependendo do local de acometimento da lesão, outras especialidades médicas, como urologia ou coloproctologia, devem ser acessadas, assim como fisioterapia e psicologia, para o alívio dos sintomas de dor, avaliação e melhora dos sintomas de depressão comumente associados à doença e uma melhor qualidade de vida5.

 

Fontes:
1 – ASPECTOS DIAGNÓSTICOS E TERAPÊUTICOS DA ENDOMETRIOSE – Revista Científica FAEMA. Disponível em https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=4&ved=2ahUKEwjQ_Yahr4boAhXhLLkGHbNlDHYQFjADegQIBhAB&url=http%3A%2F%2Fwww.faema.edu.br%2Frevistas%2Findex.php%2FRevista-FAEMA%2Farticle%2Fdownload%2Frcf.v9iedesp.583%2F543%2F&usg=AOvVaw0HgNc9xEWOA4glKebD9VmZ. Último acesso em 10 de março de 2020.
2- ENDOMETRIOSE DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO CLÍNICO – Universidade Federal do Ceará. Disponível em http://www2.ebserh.gov.br/documents/214336/1106177/PRO.MED-GIN.015+-+ENDOMETRIOSE+DIAGNÓSTICO+E+TRATAMENTO+CLÍNICO.pdf/b4368ec1-80f3-4d44-907b-3f56e11ca382. Último acesso em 10 de março de 2020.
3 – Laganà AS, Garzon S, Götte M, Viganò P, Franchi M, Ghezzi F, Martin DC. The Pathogenesis of Endometriosis: Molecular and Cell Biology Insights. Int J Mol Sci. 2019 Nov 10;20(22). pii: E5615. doi: 10.3390/ijms20225615. Review. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/31717614. Último acesso em 20 de março de 2020.
4 – Aspectos atuais do diagnóstico e tratamento da endometriose – Scielo. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/rbgo/v32n6/v32n6a08.pdf. Último acesso em 10 de março de 2020.
5 – Ball E, Khan KS. Recent advances in understanding and managing chronic pelvic pain in women with special consideration to endometriosis. F1000Res. 2020 Feb 4;9. pii: F1000 Faculty Rev-83. doi: 10.12688/f1000research.20750.1. eCollection 2020. Review. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32089831. Último acesso em 20 de março de 2020.