Há um ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou pela primeira vez uma lista de bactérias superresistentes que oferecem perigo à humanidade. Atualmente, estima-se que cerca de 700 mil pessoas percam a vida anualmente em decorrência de infecções por bactérias resistentes a medicamentos. O cenário é alarmante, como nos conta o médico infectologista Artur Timerman, mestre em Infectologia pela Universidade de São Paulo, chefe da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos e membro do Board Científico de Infectologia da Eurofarma.

 

O problema das superbactérias é uma ameaça real à saúde?

Dr. Artur Timerman – Sim, não há contestação sobre a relevância deste problema. Desde 2015, a OMS colocou a resistência bacteriana como um dos cinco maiores problemas de saúde do século 21. É uma ameaça real, disseminada em todo mundo, não existe lugar isento do problema. É um grande impacto na saúde pública, e crescente, pois cada vez mais vemos um número maior de bactérias resistentes aos antibióticos. E para várias já não há tratamento.

Como chegamos a este cenário de bactérias super-resistentes aos antibióticos?

Dr. Artur Timerman – Existem vários fatores, um deles tem a ver com o preço do sucesso. A medicina tem avançado muito, permitindo às pessoas sobreviverem por mais tempo. Hoje temos tratamentos como diálises, transplantes, quimioterapias, as unidades de terapia intensiva, entre outros, que possibilitam, felizmente, as pessoas viverem, mesmo debilitadas. Neste grupo são detectadas pela primeira vez essas bactérias multirresistentes. É importante salientar que é essencial usar antibiótico de forma correta nesses pacientes. Muitos dos avanços da medicina não existiriam se a gente não tivesse os antibióticos adequados para tratar as complicações desses tratamentos modernos. Para tratar infecções é importante que o médico faça uso consciente e adequado do antibiótico. O contraponto dessas duas questões, a fragilidade do paciente e o uso inadequado do medicamento, fará com que apareçam as bactérias resistentes. Quando o paciente realmente precisar do medicamento, ele não vai fazer efeito. Cerca de 90% das infecções respiratórias do trato superior são de origem viral, para os quais são prescritos antibióticos, e isso é absolutamente desnecessário. Esse uso abusivo traz consequências. Além do uso inadequado e de pacientes com condições clínicas comprometidas, temos um terceiro item relevante, a medicina veterinária. Em países como o Brasil faz-se uso de antibiótico na suplementação alimentar de gado, galinha e porco. Usa-se até mesmo na agricultura. Quando comemos esses alimentos vamos ingerir também antibiótico. As bactérias têm estruturas organizadas em sua composição que se adaptam ao mundo dos antibióticos, quando mais nos expomos a eles, mais ficamos suscetíveis às bactérias resistentes. O problema que temos hoje é a somatória de todos esses fatores.

Hoje já se fala na era pós-antibiótico, na qual voltaríamos à época anterior à penicilina. Quais as consequências futuras?

Dr. Artur Timerman – Nós vamos voltar a morrer de infecções de pele, de urina, pneumonia. A curto prazo, nos próximos cinco anos, não haverá nenhuma droga revolucionária neste sentido. Nada que possa fazer com que esta era pós-antibiótico possa ser revertida. Por isso é fundamental falarmos deste problema.

Existe algo que possa ser feito para adiar esse quadro?

Dr. Artur Timerman – Em termos de políticas públicas temos que fortalecer os serviços de vigilância sanitária e direcionar para tratamentos mais adequados. Não é para qualquer infecção que se dá antibiótico. Costumo dizer que antibiótico não é antitérmico. Os profissionais de saúde que atuam em hospitais precisam saber quais são as bactérias mais comuns que circulam naquele ambiente. Isto permitirá que tenham condições de prescrever de forma correta. A OMS define algumas medidas, como capacitação laboratorial para identificação precoce das bactérias. Em muitos lugares do mundo, porém, há uma lacuna com relação a esses recursos.