A Gastromotiva é uma das primeiras organizações no país estruturadas para promover transformação e inclusão social por meio da gastronomia. Que balanço você faz desses 10 anos de projeto? Há dados de empregabilidade ou iniciativas de empreendedorismos das pessoas que saíram dos cursos?

David Hertz – O balanço é muito positivo. As pessoas acreditam no mesmo sonho que nós da Gastromotiva e isso nos impulsiona. Todas as histórias de transformação de nossos alunos nos enchem de orgulho. São mais de mil histórias de pessoas em busca de uma vida melhor e que normalmente custam a encontrar oportunidades. Histórias de muitos “nãos”, até que descobrem a gastronomia como ferramenta para transformar não só sua vida, mas a de muitos outros também. Hoje alcançamos um índice de 80% de empregabilidade e já formamos mais de 3200 auxiliares em cozinha e 250 empreendedores.

 

Como funcionam os cursos da Gastromotiva atualmente? Quantos existem em andamento pelo país e com quantos alunos?

David Hertz – O Curso de Capacitação é o prato principal da Gastromotiva porque transforma vidas de pessoas cuja renda familiar é de até três salários mínimos e que sejam apaixonadas por cozinha. Como nós acreditamos na educação como ingrediente fundamental para o desenvolvimento social do nosso país, investimos na capacitação de jovens talentos que precisam de oportunidade para crescer. O curso tem 206 horas e engloba o ensino prático e teórico da gastronomia sempre valorizando o profissional de cozinha, abordando as habilidades básicas, confeitaria, panificação e ecogastronomia, além de aulas de cidadania, higiene e segurança alimentar, postura profissional e outras disciplinas que diferenciam o curso da Gastromotiva e agregam valores não só à formação profissional, mas também pessoal, dos alunos. A ideia é que, depois de quatro meses, ele esteja pronto para atuar no mercado de trabalho, com comprometimento, responsabilidade e disposição para seguir carreira nessa área. Atualmente, no Brasil as aulas acontecem na Universidade Anhembi Morumbi (SP), Universidade Positivo (PR) e na UNISUAM (RJ), de segunda à sexta-feira, das 13h às 17h. As inscrições estão sempre abertas no nosso site, mas os processos seletivos acontecem de acordo com a abertura de novas turmas.

 

Além da rede de restaurantes parceiros do projeto, como o projeto se sustenta hoje?

David Hertz – Além da rede do mercado gastronômico e de hospitalidade que apoia a Gastromotiva e recebe os aprendizes depois de formados, nos ajudando a inseri-los no mercado de trabalho, o curso é financiado por empresas, fundações, institutos e indivíduos que acreditam na causa. Contudo, ainda temos muitas dificuldades. O próprio Refettorio Gastromotiva abriu com uma dívida de R$ 1 milhão. Por conta disso, precisou ficar fechado por um mês após os Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro. Não havia recursos para pagar nem mesmo contas de água e de luz. Nossa grande dificuldade é a falta de investidores financeiros.

 

Você deve ter visto e ouvido muitas histórias emocionantes de transformação nestes 10 anos, ainda hoje, os relatos te surpreendem?

David Hertz – Com certeza. Observe, por exemplo, as histórias que contamos para a revista do Itaú em anexo.

 

De onde vêm os alimentos para as refeições que são preparadas no Refettorio? Quantas refeições em média são servidas diariamente?

David Hertz – Recebemos ingredientes excedentes que seriam descartados, mas que ainda estão bons para o consumo do Grupo Benassi, um parceiro e maior atacadista do Brasil. Com estes ingredientes, preparamos refeições deliciosas e saudáveis com entrada, prato principal e sobremesa, que são servidas para mais de 70 pessoas em vulnerabilidade social diariamente.

 

 

O que não entra no cardápio do Refettorio de jeito nenhum? E no seu?

David Hertz – Todos os alimentos que recebemos são aproveitados em sua integralidade. Queremos reduzir os desperdícios e os resíduos. Não podemos admitir o desperdício enquanto a ONU nos diz que uma a cada oito pessoas dormirão hoje sem saber se terão o que comer amanhã.

 

 

Você acha que as pessoas estão perdendo a relação afetiva com a comida, pelo menos nas grandes cidades, em função da correria e o apelo dos fast food e comidas industrializadas? É possível um resgate da importância da boa alimentação?

David Hertz – Com certeza. Nós tanto acreditamos nisso, que incentivamos todos os nossos alunos da Capacitação Profissional em Cozinha a, em seu trabalho final, que chamamos de Trabalho de Ação Comunitária, levarem para suas comunidades todo o aprendizado em balanceamento das refeições, eco-gastronomia, aproveitamento integral dos alimentos, que receberam na formação. Cada um deles se torna um porta-voz da boa alimentação, saudável e compartilha com crianças e pais em suas comunidades. Desta forma, já atingimos a mais de 100 mil pessoas.

 

 

Nos cursos há preocupação em passar informações sobre alimentação saudável?

David Hertz – Sim, esse é um dos nossos pilares. No curso a proposta é instrumentalizar o aluno nas áreas de ética e cidadania, uma das aplicações que enfocamos neste processo educativo é justamente uma crítica dos nossos hábitos alimentares culturais, a questão do lixo e do desperdício e por fim, da maneira como elegemos nossos alimentos. Os alunos são convidados a conversar sobre questões como obesidade, colesterol, diabetes, hipertensão, alergias alimentares e a partir disso propor receitas que alterem a quantidade de açúcar, sal, gordura. É comum ouvir relatos de alunos que deixaram de comer comida pronta e deixaram de usar temperos cheios de sódio e gordura porque acabam por passar por uma transformação de mentalidade e da relação com a comida.

 

 

A Gastromotiva já está no México, quais são os planos de internacionalização do projeto? O que imagina conquistar?

David Hertz – Fizemos um ano no México agora em maio e nosso projeto especial na África do Sul segue crescendo. Em breve estaremos na Argentina e estamos viabilizando Colômbia e Índia.

 

 

Fonte: Revista Panorama (informativo interno do Grupo Eurofarma)