Como funciona a Escola de Enfermeiras da Cruz Vermelha no Brasil?

Eliézer Lima – Atualmente, a Cruz Vermelha Brasileira (CVB) tem escolas técnicas de enfermagem no Rio de Janeiro e São Paulo. É necessário ter o Ensino Médio completo. É possível fazer a inscrição através do site ou na secretaria de cada filial citada. O curso dura cerca de dois anos e forma cerca de 150 alunos a cada ano. O site do Órgão Central, onde é possível acessar as páginas de cada filial é www.cruzvermelha.org.br.

A criação da Escola de Enfermeiras, em 1916, deu início a profissionalização da Enfermagem no Brasil. Desde então, como o senhor avalia a contribuição da instituição para o desenvolvimento da profissão no Brasil?

Eliézer Lima – A Cruz Vermelha é a principal instituição de ajuda humanitária do mundo. Estamos presentes em 190 países. Nosso carro chefe são os Primeiros Socorros. Eles salvam vidas. Milhões de pessoas são formadas anualmente em todo o mundo. A CVB tem cursos prontos, com diversos formatos, que podem ser aplicados nas empresas, na sede nacional da instituição, no Rio de Janeiro, ou em cada uma de suas mais de 100 filiais estaduais ou municipais, distribuídas por todas as regiões do país.

O curso de enfermagem é um dos muitos que a instituição hoje oferece. Mas nossa ligação é estreita. Conforme a sua pergunta destaca, a história da Escola de Enfermagem da CVB se confunde com a própria história da Enfermagem no Brasil. Foi a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) que contribuiu para despertar o interesse na população brasileira pela prestação de serviço voluntário. Em 20 de outubro de 1914, começou o primeiro curso para formar o corpo de Enfermeiras Voluntárias. Em seguida, foram criados um novo curso para Enfermeiras profissionais e a Escola Prática de Enfermeiras, na sede provisória da CVB, em 16 de março de 1916.

Vale lembrar que, durante a Gripe Espanhola (1918), antes mesmo da atual sede, construções provisórias foram transformadas em isolamentos e as enfermeiras prestaram atendimento em diversos hospitais do Rio de Janeiro, nas residências e em postos de socorros de algumas filiais. Em 1920, foi inaugurado o primeiro curso de enfermeiras visitadoras da CVB, pioneiro no país. O papel destas enfermeiras no Rio de Janeiro foi considerado fundamental para desenvolver a educação sanitária, bem como para a formação de um elo entre a família e o serviço de saúde.

Em 1940, foi criado o registro de diplomas de Enfermeiras Profissionais e Samaritanas da CVB, conferindo o reconhecimento para o exercício da profissão em todo o território nacional. Entre as formandas do curso da CVB, duas participaram da Segunda Guerra Mundial na Itália, como membros da Força Expedicionária Brasileira (FEB): Elza Cansanção Medeiros e Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero. Elza Cansanção se tornou conhecida como a mulher mais condecorada do Brasil. Por duas vezes, outras duas alunas da CVB foram agraciadas com a Medalha Florence Nightingale, a mais alta distinção internacional dada a um enfermeiro ou auxiliar de enfermagem. Elas são Idalia de Araújo Porto Alegre (1927) e Irene de Miranda Contegipe Milanez (1948). Então, é inegável a contribuição da CVB para o fortalecimento e desenvolvimento da profissão no Brasil.

Como o senhor avalia o mercado de trabalho na área de Enfermagem hoje no Brasil? Quais as principais oportunidades no momento?

Eliézer Lima – Como auxiliar dos poderes públicos, a Cruz Vermelha Brasileira tem contribuído para que os serviços de assistência, em diversas áreas, sejam cada vez mais eficientes. Muitos profissionais da área da saúde procuram a instituição para colocar em prática e oferecer à população o que aprenderam nas universidades. Através do trabalho humanitário, a Cruz Vermelha propicia assistência aos mais vulneráveis. Por atuar na formação e capacitação, tem ajudado em pesquisas e protocolos. Como parte de um Movimento Internacional, também participa da troca de experiências com profissionais e voluntários de outros países. A Cruz Vermelha Brasileira oferece ainda oportunidades para profissionais da área em seu corpo docente.

Recentemente, a Cruz Vermelha auxiliou no resgate das vítimas do acidente aéreo com a delegação da Chapecoense, na Colômbia. Como funciona a ação da Cruz Vermelha em tragédias e emergências como essa?

Eliézer Lima – Em situações como essa, a CVB capacita seus voluntários para atuar na prestação de Primeiros Socorros, Apoio Psicossocial e Restabelecimento de Laços Familiares. Foi assim, por exemplo, nos deslizamentos que aconteceram na serra do Rio de Janeiro, em 2011, e em diversos outros acidentes naturais. As práticas variam entre as Sociedades Nacionais de Cruz Vermelha. A colombiana também faz resgate em acidentes. Ainda que a CVB tenha um departamento especializado, no Brasil esta função é do Corpo de Bombeiros. Mas, nunca é demais lembrar, estamos sempre entre os primeiros a chegar e os últimos a sair. Mesmo quando o assunto deixar de fazer parte do noticiário, nosso trabalho continua. Até hoje, prestamos ajuda psicossocial a vítimas das enchentes da serra fluminense. Por tudo isso, necessitamos do apoio das empresas e da população em geral, para a aquisição de equipamentos e capacitação de voluntários.

 

Atualmente, quantos enfermeiros brasileiros e latino-americanos da Cruz Vermelha estão atuando em conflitos armados pelo mundo? É exigido alguma formação adicional para integrar essas equipes?

Eliézer Lima – A CVB pertence ao Movimento Internacional da Cruz vermelha e do Crescente Vermelho. Fazem parte dele as Sociedades Nacionais, presentes em 190 países e que atuam de acordo com as necessidades humanitárias. Também integram o Movimento a Federação Internacional da Cruz Vermelha e Crescente Vermelho, responsável pela ajuda em desastres naturais e emergência, e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que presta assistência em conflitos armados e outras situações de violência. Os voluntários são capacitados antes de qualquer atuação, seja qual for. A instituição também atua em rede, ou seja, quando houver necessidade, uma Sociedade Nacional pode receber ajuda de outras.

 

Existe integração entre as equipes de enfermagem da Cruz Vermelha na América Latina?

Eliézer Lima – Atualmente, a FICV tem trabalhado em prol da padronização da ação da Cruz Vermelha em todo o mundo, seja com escolas de enfermagens seja com outros aprendizados. No Brasil, a Cruz Vermelha tem buscado sua padronização em Primeiros Socorros, capacitando esquipes de socorristas de acordo com a diretriz do Centro Global de Primeiros Socorros da Cruz Vermelha, com sede em Paris. A Padronização da Escola Técnica de Enfermagem está nos planos da instituição para este ano.

 

Fonte: Revista Panorama (informativo interno do Grupo Eurofarma)