Feminismo é a missão de todos para um mundo mais igualitário. Essa é a causa defendida pela médica franco-mexicana Nadine Gasman, representante do escritório da ONU Mulheres no Brasil, e com quem Panorama conversou sobre o tema. Nadine tem mestrado em Saúde Pública pela Universidade de Harvard e doutorado em Gerenciamento e Políticas de Saúde pela Universidade Johns Hopkins, e foi diretora da campanha do Secretário-Geral das Nações Unidas “Una-se pelo Fim da Violência Contra as Mulheres” para a América Latina e Caribe.

Houve avanços na conscientização, na América Latina, para as demandas das mulheres?

Nadine Gasman – Sim, os movimentos feministas pela igualdade têm avançado muito nos últimos anos na região, e são resultado do empenho para trazer à arena pública a questão dos direitos humanos das mulheres. A região sempre teve o ditado popular que briga de homem e mulher não se mete a colher, mas graças ao trabalho articulado com governos e sociedade civil temos avançado muito em leis e políticas, não somente para o enfrentamento da violência, mas em oportunidades de trabalho, educação e participação política das mulheres.

O tema do empoderamento feminino está presente em praticamente todas as nações. Quais exemplos os países da América Latina podem dar ao mundo nestes debates?

Nadine Gasman – Estamos numa região com uma sociedade civil muito forte e vibrante. Democracia não é democracia se você não tem igualdade entre homens e mulheres. A Bolívia é o segundo país do mundo com mais mulheres no parlamento. Outros países estão se movendo para a democracia partilhada, como o México. Tivemos manifestações históricas na Argentina contra o feminicídio. Na Costa Rica, México e Argentina temos leis para falar de paridade no governo. Não temos um exemplo total, mas temos avanços importantes em muitos países. O que ainda acontece é que os avanços não são iguais para todas as mulheres, por exemplo, no Brasil e em outros países há diferenças entre as mulheres negras, brancas e indígenas.

Quais temas relacionados aos direitos das mulheres os países da América Latina precisam avançar com urgência?

Nadine Gasman –  O desafio da violência. Este tema é urgente, temos países com as maiores taxas de feminicídio do mundo. Também há a questão da participação política das mulheres, temos exemplos bons, mas outros não tão bons. Uma coisa muito importante na região é que precisamos trabalhar para mudar a cultura machista e racista, entre outras questões, para incorporar os direitos humanos como tema central. A educação e a mídia são essenciais para alcançarmos isso.

Qual a importância do setor privado na consolidação das políticas voltadas para a diversidade e para atenuar as desigualdades entre os gêneros?

Nadine Gasman – O setor privado é essencial para promover os objetivos da agenda 2030 da ONU para o desenvolvimento sustentável [A ONU Mulheres tem a iniciativa global “Por um planeta 50-50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de gênero”]. A maioria dos empregos está na iniciativa privada, então ter o compromisso deste setor é muito importante, nós temos nos engajado com as empresas para promover os sete princípios de empoderamento das mulheres. O objetivo é melhorar as possibilidades de carreiras, as condições de trabalho e a relação com as comunidades para promover o empreendedorismo, a segurança e a capacitação.

Na Agenda 2030, a ONU propõe mudanças de paradigmas na sociedade. Qual o futuro ideal?

Nadine Gasman –  O futuro ideal para conseguir manter esta agenda é o comprometimento dos países, envolvendo governos de todas as esferas neste compromisso global. E um engajamento de toda a sociedade para um mundo com homens e mulheres trabalhando juntos com igualdade.

Fonte: Revista Panorama (informativo interno do Grupo Eurofarma)