O sono possui várias e fundamentais funções biológicas no desenvolvimento e restaurações como na consolidação da memória, na visão binocular, na regulação da temperatura corporal, na conservação e restauração da energia e do metabolismo energético cerebral¹ 

 

Devido a essas importantes funções, as perturbações do sono podem acarretar alterações significativas no funcionamento físico, ocupacional, cognitivo e social do indivíduo, além de comprometer substancialmente a qualidade de vida¹. 

 

O sono normalmente varia ao longo do desenvolvimento humano quanto à duração, distribuição de estágios e ritmo circadiano. As variações na quantidade de sono são maiores durante a infância, decrescendo de 16 horas por dia, em média, nos primeiros dias de vida, para 14 horas ao final do primeiro mês e 12 horas no sexto mês de vida. Depois dessa idade o tempo de sono da criança diminui 30 minutos ao ano até os cinco anos¹.  

 

Na vida adulta decresce a quantidade e varia o ciclo do sono em função da idade e de fatores externos. Com o avanço da idade, ocorrem perdas na duração, manutenção e qualidade do sono. A dor, o uso de medicações e diferentes condições clínicas são exemplos de fatores que podem afetar a quantidade e a qualidade do sono, especialmente entre idosos, que são mais propensos a essas condições¹.  

 

A maioria dos distúrbios do sono pode ocorrer tanto em adultos como em crianças, o que difere é sua forma de apresentação. Considera-se que, possivelmente, somente as cólicas e a síndrome da morte súbita do lactente (SMSL) são distúrbios do sono exclusivos da infância, os demais podem ocorrer em qualquer idade². 

 

O diagnóstico correto é o primeiro passo essencial no sucesso do tratamento de um distúrbio do sono. A polissonografia noturna (PSG) é o método mais acurado e objetivo para avaliação do sono e estabelecimento de um diagnóstico. Trata-se de um exame não invasivo que registra vários parâmetros durante o sono através do monitoramento das atividades cardíaca e cerebral, dos movimentos oculares e musculares, do fluxo e esforço respiratório e dos níveis de oxigênio no sangue. Os exames diagnósticos são utilizados para avaliar pacientes que relatam sono anormal, muitas vezes com repercussões dramáticas durante o dia, como cansaço ao despertar, sonolência excessiva diurna e distúrbios da atenção e do humor³. 

 

As consequências dos distúrbios do sono são fortemente relacionadas à qualidade de vida das pessoas que sofrem desse mal. O conceito de qualidade de vida proposto pela Organização Mundial de Saúde engloba domínios da saúde física, relações sociais, grau de independência, características ambientais, variáveis psicológicas e espirituais. A qualidade do sono e a qualidade de vida estão intimamente relacionadas. O desemprego, por exemplo, é fator de qualidade de vida que pode afetar a qualidade do sono de um indivíduo porque a preocupação presente nessa situação aumenta a latência do sono e os despertares noturnos¹. Por outro lado, um indivíduo portador de distúrbio do sono provavelmente sofrerá consequências no trabalho devido à má qualidade do sono¹. 

 

Classificação internacional dos distúrbios do sono¹ 

A Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono (ICSD) é um dos sistemas classificatórios mais utilizados na literatura especializada, incluindo quatro grupos organizados e subgrupos.  

 

Dissonias  são transtornos primários relacionados à iniciação ou manutenção do sono ou à sonolência excessiva, com distúrbios na qualidade, quantidade ou regulação de ritmo do sono. As dissonias formam o maior grupo dentre os transtornos do sono, com 34 distúrbios subdivididos em distúrbios intrínsecos, extrínsecos e relacionados ao ritmo circadiano; 

 

Parassonias  são alterações comportamentais ou fisiológicas que ocorrem em diferentes momentos do sono e formam o segundo maior grupo de transtornos do sono, com 24 distúrbios subdivididos em subgrupos como distúrbios do acordar, que envolvem o sonambulismo e o terror noturno, distúrbios da transição sono e vigília, que envolvem câimbras noturnas, parassonias associadas com o sono REM, que envolvem alterações como pesadelos e paralisia do sono, e outras parassonias, que incluem as demais alterações do sono, como bruxismo, síndrome da morte súbita noturna inexplicada e parassonias sem especificação; 

 

Distúrbios do sono relacionados a alterações médico-psiquiátricas – esses distúrbios reúnem 19 transtornos associados a doenças mentais ou neurológicas e outras doenças como psicoses, transtornos de humor e da ansiedadedemências, mal de Parkinson, epilepsia relacionada ao sono, isquemia cardíaca noturna, refluxo gastroesofágico relacionado ao sono e doença do sono, entre outras; 

 

Distúrbios do sono propostos – são aqueles que englobam síndromes heterogêneas sem requisitos para definições específicas, como sono curto, sono longo, hiperidrose do sono e síndrome do engasgue no sono. 

 

Fonte: 
1 – Müller, Mônica Rocha e Guimarães, Suely Sales – Impacto dos transtornos do sono sobre o funcionamento diário e a qualidade de vida – ScieloDisponível em http://www.scielo.br/pdf/estpsi/v24n4/v24n4a11.pdfÚltimo acesso no dia 26 de novembro de 2019. 
2 – Distúrbios do sono – Jornal da PediatriaDisponível em http://www.jped.com.br/conteudo/02-78-S63/port.pdf. Último acesso no dia 26 de novembro de 2019. 
3 – MAGALHÃES, F., and MATARUNA, J. Sono. In: JANSEN, JM., et al., orgs. Medicina da noite: da cronobiologia à prática clínica – Scielo Books. Disponível em http://books.scielo.org/id/3qp89/pdf/jansen-9788575413364-09.pdfÚltimo acesso no dia 26 de novembro de 2019.