Referência no Brasil em Medicina do Sono e presidente da Associação Brasileira do Sono (ABS), a médica neurologista Andrea Bacelar  apresenta dados da ABS estimam que 70 milhões de brasileiros sofrem com insônia.

 

A insônia é um distúrbio negligenciado pela população e comunidade médica?

Andrea Bacelar – Sim, isso é uma grande questão para nós na Associação Brasileira do Sono. Temos um trabalho árduo para formar mais especialistas e ensinar melhor sobre este transtorno em várias graduações, como Medicina, Psicologia e Biologia. Precisamos de mais profissionais capacitados para o diagnóstico. Com relação à população, realizamos anualmente uma campanha de conscientização sobre este mal, que é a Semana do Sono. Por conta do estresse e do ritmo acelerado de vida, dentre outras causas, estima-se que 1/3 dos brasileiros tenha insônia. A média mundial fica entre 15 e 20%.

 

Quais os perigos desta negligência?

Andrea Bacelar – A insônia tem consequências imediatas. No dia seguinte, tem-se um reflexo da noite mal dormida, contudo, o problema maior é a longo prazo. Doenças começam a aparecer, ou são antecipadas, se não temos um mínimo de seis horas de sono por dia. Esta quantidade não é a ideal, mas sim, o marco mínimo estabelecido. Ao dormir menos que isso há maior risco de hipertensão e até neoplasias em geral, por exemplo. Dependendo da predisposição para desenvolver algumas doenças, uma pessoa que sofre de insônia pode agravar este fator de risco.

 

Existe um tempo ideal de sono?

Andrea Bacelar – Há variabilidade ao longo da vida, para mais e para menos, crianças e idosos têm um período de cochilo durante o dia, mas a recomendação para uma pessoa adulta é entre sete e oito horas de sono monofásico, que ocorre de uma vez só, preferencialmente à noite.

Qual é o profissional mais indicado para se procurar ajuda para a insônia? Andrea Bacelar – O ideal seria procurar um especialista em medicina do sono, mas, sabemos que este profissional não é acessível em todas as localidades, pois não se trata de uma especialidade médica bem difundida ainda. Neurologistas e psiquiatras são profissionais que abordam o tema e, claro, um clínico geral ou geriatra, e mesmo o ginecologista, que muitas vezes acaba sendo o único contato médico de muitas mulheres.

 

Como é feito o diagnóstico e quais as possibilidades de tratamento para a insônia?

Andrea Bacelar – O diagnóstico é clínico, feito por um médico que coletará uma história adequada, direcionando as perguntas, realizando um bom exame físico, além dos exames complementares, que ajudam a excluir outros problemas. O tratamento precisa ser individualizado, pois a insônia costuma estar relacionada com outros problemas, nós precisamos avaliar muito bem o paciente. Existem medicamentos específicos, que podem diminuir o estado de alerta e ansiedade, e também tratamento não farmacológicos, que são muito úteis e necessários para a manutenção do tratamento contra insônia, como a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I). Há uma questão comportamental muito grande relacionada ao sono, é importante reaprender a dormir.